Idéias

 

Relações pessoais modernas

           Antigamente, ao se deparar com um amigo de infância o qual não era visto há anos, ou décadas, as pessoas se surpreendiam em como a pessoa havia mudado, em saber o que ela estava fazendo da vida, e etc. Hoje isso está mudando com o advento da Internet, e mais precisamente, das ferramentas de relacionamentos. Numa comunidade como o Orkut, por exemplo, depois que você adiciona um amigo, ele continuará lá na sua lista até que apague seu perfil. Caso contrário, permanecerá lá por toda a vida. Você chegará aos oitenta anos de idade, e aquela pessoa ainda estará lá, e durante todo esse tempo você terá acompanhado todas as suas mudanças, para onde ela foi, o que anda fazendo ou como está sua aparência. Não haverá mais a surpresa de se encontrar uma pessoa depois de um longo período e ver o que mudou. As pessoas sempre estarão acessíveis, há apenas um clique de distância. Todos nós estaremos (já estamos) condenados ao eterno convívio com nossos conhecidos, todos interligados até o fim de nossas vidas. Daqui a cinqüenta anos, parem e olhem, nas suas ferramentas de relacionamentos, os seus amigos, e vocês verão todos aqueles que estão vendo hoje, com mais de sessenta anos de idade, a maioria já aposentados. Você terá visto, mesmo que sem detalhes, como todas as vidas de todas aquelas pessoas foram se desenvolvendo com o passar das décadas. Mas isso faz parte do novo mundo que estamos começando ainda a viver, onde tudo e todos estarão conectados ininterruptamente, seja por Internet, por celulares, ou por tecnologias novas que ainda estão por vir. Seu carro, sua casa, sua carteira, sua cama, e, é claro, você mesmo, tudo estará ligado numa grande rede em breve, e os indivíduos estarão cada vez mais próximos, independente da distância geográfica. Se isso tudo será bom ou ruim eu não sei, a única certeza é que vai ser assim.

Questão de preferência

           Todo mundo se acha o dono da verdade, e que suas escolhas são as melhores, mas baseados em quê? Quantas vezes você já não pegou alguém, ou você mesmo, criticando alguma música dizendo algo do tipo “Isso é muito ruim, como alguém pode ouvir isso?”? Uma pessoa que não gosta de rock vai achar uma música desse gênero barulhenta, enquanto uma que aprecia não se sentirá incomodada. O mesmo vale para forró, jazz, funk, e qualquer outro gênero musical. Alguns acreditam que suas preferências são superiores, de melhor gosto, por causa de letras mais elaboradas, ou por a música ser mais criativa, e por aí vai. Mas, quais são os critérios para avaliar isso? O que é uma letra mais “criativa”? Fatores como este são subjetivos, não quantitativos, então quem pode dizer o que é melhor ou pior, sem ser levado pelo próprio gosto pessoal? Alguns podem alegar que uma música é mais técnica que outra pela complexidade, que de fato é uma métrica quantitativa, mas isso por si só não faz uma música ser boa, pois, se assim fosse, bastaria fazer um programa de computador que gerasse músicas aleatoriamente com a maior complexidade possível e poderíamos aposentar todos os músicos. Só que um programa desses geraria apenas barulho ao invés de música, pois não leva em conta fatores como o sentimento passado pela música, que no final das contas é o que importa para quem está ouvindo. Porém esse fator também é completamente subjetivo, uma música pode ser alegre para uma pessoa e triste para outra. Conclusão? Citei apenas o assunto “música”, mas isso vale para qualquer assunto subjetivo, que envolva preferências pessoais: ao invés de taxar algo de “ruim”, diga apenas que não gosta, simplesmente. Além de mais sensato, é o correto. Se todo mundo passasse a fazer isso, haveria bem menos discussões inúteis e mais compreensão pelas partes envolvidas. Não há melhor, nem pior, apenas o diferente.

Qual é o sentido da vida?

           Algumas pessoas encontram o sentido de suas vidas na religião, outras na carreira profissional, outras na promoção de uma ideologia, ou qualquer outra coisa. Mas, afinal, por que as pessoas pensam que para viver é necessário um “sentido” para a vida? Para que mascarar a verdade e fingir que não sabemos que o futuro não nos reserva nada, afinal não importa o que tenhamos feito, vamos morrer um dia, e, nesse momento, o que fizemos ou deixamos de fazer não terá importância alguma. Alguns podem dizer que o que importa é aquilo que deixamos no mundo, quais mudanças provocamos, o que ficou de positivo, as lembranças, porém, no final das contas, nem isso é verdade. No final de tudo, os humanos serão extintos, seja por causa de guerras entre eles mesmos, seja por doenças, seja por uma explosão de raios gama, ou, enfim, pela própria contração que o universo pode vir a sofrer, ou o caso contrário, que é a expansão infinita, na qual uma hora a energia existente no universo vai acabar (Segunda Lei da Termodinâmica; a entropia total do universo apenas cresce), e não haverá como seres vivos continuarem a existir em tais condições. Ou seja, não há futuro, e tudo que fizermos de nada valerá. Então isso quer dizer que não vale a pena viver, que é melhor todo mundo se matar e acabar logo com isso? Não, pelo contrário, nada disso tira a beleza de viver. Somos simples seres humanos, insignificantes, e não cabe a nós tentar entender os porquês do mundo, devemos apenas continuar vivendo, sem preocupações quanto a essas questões transcendentais. Portanto, se você por um acaso está vivo, simplesmente aproveite isso ao máximo, sem questionamentos, apenas viva, afinal não fará diferença alguma mesmo. Como diria a Marta Suplicy: relaxe e goze.


O que é real?

           Suponha que você esteja sentado, comendo uma fatia de bolo de chocolate, e sentindo o sabor, o cheiro, todas as sensações que isso proporciona. Agora suponha que você esteja sonhando tudo isso. Como você saberia a diferença entre o que é real e o que é onírico? No que se sustenta essa diferença, qual é a base para descobrir o que é “fato”? Na verdade, é tudo a mesma coisa, não existe uma realidade absoluta. O que se entende por realidade nada mais é do que apenas uma abstração criada pelo cérebro para lidar com o meio no qual ele está inserido, são apenas sensações. Se o seu cérebro for conectado num computador que gere imagens, sons, que mande as informações relativas às sensações, como o toque ou o cheiro, diretamente na sua mente, de maneira que seja imperceptível distinguir o universo criado pelo computador do universo “real”, e que se possa viver indefinidamente nele, desconsiderando as necessidades fisiológicas, no melhor estilo Matrix, isso também não é realidade? Afinal, qual a diferença entre pensar que uma coisa é, e ela o ser, de fato? Num exemplo um pouco forçado, mas para ilustrar melhor o entendimento da coisa: uma mulher que pense que foi traída pelo marido, terá o mesmo conjunto de reações de outra que tenha sido realmente traída. Analisando então as reações do cérebro da tal mulher, como descobriríamos o que tinha acontecido realmente? A realidade na cabeça da mulher é a traição, e nada mais. Ou seja, o que vale é a informação que o cérebro recebe, que ele absorve, independente de onde ela venha, se é do nosso “mundo real”, se é de um computador, ou se é de um sonho. Baseado nas informações que ele recebe é que ele cria a nossa realidade individual, e é nela que nós vivemos, repetindo mais uma vez, independente de qual seja a fonte das informações. Então, antes de condenar alguma coisa por ser “ilusória” ou alguém por “viver fora da realidade”, pense bem, pois isso é uma questão muito relativa. O que é real para uns, não é para outros, e o mundo humano nada mais é que o resultado de uma interação entre todas essas realidades individuais, sem a existência de uma realidade absoluta para todos.